Maternidade e Imigração

“(….) o processo da maternidade de uma mulher imigrante é influenciado também por todo o processo de adaptação a que foi submetida. Verifica-se que o suporte social é de extrema importância para a eficácia de uma maternidade bem sucedida.(…) nos cuidados à mulher e ao recém-nascido, existe uma dualidade de atitudes e comportamentos, entre os ensinamentos da sua cultura e transmitidos pelos seus pares, e os ensinamentos veiculados pelos profissionais de saúde. Em situação normal de puerpério e para resolução de problemas triviais, a mulher imigrante experimenta muitas vezes os saberes da sua cultura.(…) a mulher imigrante quando vivencia uma gravidez, parto e puerpério no país de acolhimento, procura uma rede social de suporte basicamente informal, que, não sendo a que teria no seu país de origem, é a possível no país que a acolheu”.

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(…) el proceso de la maternidad de una mujer inmigrante es influenciado también por todo el proceso de adaptación a que fue sometida. Se observa que el apoyo social es de extrema importancia para la eficacia de una maternidad exitosa (…) en la atención a la mujer y al recién nacido, existe una dualidad de actitudes y comportamientos, entre las enseñanzas de su cultura y transmitidos por sus pares, y las enseñanzas de los profesionales de la salud. En la situación normal de puerperio y para la resolución de problemas triviales, la mujer inmigrante experimenta muchas veces los saberes de su cultura (…) la mujer inmigrante cuando vive un embarazo, parto y puerperio en el país de acogida, busca una red social apoyo básicamente informal, que, no siendo la que tendría en su país de origen, es la posible en el país que la acogió “.

Maria João Pereira Sopa, Representações e práticas da maternidade em contexto multicultural e migratório. Tradução: Caroline V Nogueira.

Texto completo: https://repositorioaberto.uab.pt/bitstream/10400.2/1343/1/Representações%20e%20Práticas%20da%20Maternidade%20em%20Contexto%20Multicu.pdf

COMEÇO DA CESARIANA COMO PRÁTICA MÉDICA

“Por volta de 1900, a mortalidade materna desce para cerca de 2%. Então, mas só então, torna-se mais seguro dar à luz no hospital do que em casa. A combinação da anestesia e da antissepsia com os progressos em matéria de suturação permitem uma cirurgia audaciosa: a cesariana torna-se, no dealbar do século XX, uma prática corrente. (…) As parteiras entram como assalariadas nos hospitais e nas clínicas privadas; encontram-se aí em posição subalterna, sob as ordens dos médicos a partir de então todo-poderosos, e já não à disposição das parturientes. Uma forma tradicional de solidariedade feminina desorganiza-se, e as mulheres perdem toda a autonomia no domínio da reprodução. (…) Doravante o protector natural da mulher em trabalho de parto já não é o marido, mas o médico”.

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“Alrededor de 1900, la mortalidad materna desciende a cerca del 2%. Entonces, pero sólo entonces, se vuelve más seguro dar a luz en el hospital que en casa. La combinación de la anestesia y la antissepsia con los progesos en materia de sutura permiten una cirugía audaz: la cesárea se convierte, en el proceso del siglo XX, una práctica corriente. (…) Las parteras entran como asalariadas en los hospitales y en las clínicas privadas; se encuentran allí en posición subalterna, bajo las órdenes de los médicos a partir de entonces todopoderosos, y ya no a disposición de las parturientas. Una forma tradicional de solidariedad femenina se desorganiza, y as mujeres pierden toda la autonomía en el ámbito de la reproducción. (…) De aquí en adelante el protector natural de la mujer en trabajo de parto ya no es el marido, sino el médico”

Yvonne Knibiehler, “Corpos e corações”, em História das Mulheres no Ocidente, vol. 4, O Século XIX. Tradução para o espanhol: Caroline V Nogueira.

MATERNIDADE NA IDADE MÉDIA

“(…) no início da gravidez, a mulher deverá evitar ‘correr, saltar e fazer qualquer movimento que seja demasiado brusco; quando sente o movimento do feto deverá ‘comer e beber com temperança, viver amiga de Deus e viver alegre, pois que assim a alma ganha gentil hábito’; deverá abster-se de relações sexuais depois da concepção e depois do parto, e amamentar pessoalmente o recém-nascido, se quer ‘agradar a Deus e ao filhinho’”.

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“(…) al inicio del embarazo, la mujer deberá evitar ‘correr, saltar y hacer cualquier movimiento que sea demasiado brusco; cuando siente el movimiento del feto debe ‘comer y beber con temperancia, vivir amiga de Dios y vivir alegre, pues que así el alma gana gentil hábito’; debe abstenerse de relaciones sexuales después de la concepción y después del parto, y amamantar personalmente al recién nacido, si quiere ‘agradar a Dios y al hijito'”.

Silvana Vecchio, “A boa esposa”, em História das Mulheres no Ocidente, Vol. 2, A Idade Média. Tradução para o espanhol: Caroline V Nogueira.

MODELO IDEAL DE MATERNIDADE

“Toda cultura está dominada por um modelo ideal de maternidade que pode variar segundo as épocas. Sejam elas conscientes ou não, pesa sobre todas as mulheres. Pode-se aceitá-lo ou contorná-lo, negociá-lo ou rejeitá-lo, mas é sempre em relação a ele que, em última instância, se é determinado. Atualmente, o modelo é mais exigente que nunca”.

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“Toda cultura está dominada por um modelo maternal ideal que puede variar según las épocas. Sean ellas conscientes o no, pesa sobre todas las mujeres. Se puede aceptar, esquivar, rechazar o negociar, pero en última instancia siempre es en función de uno determinado. Hoy el modelo es más exigente que nunca”.

Elisabeth Badinter, La mujer y la madre: un libro polémico sobre la maternidad como nueva forma de esclavitud. Tradução do original em francês: Montse Roca. Tradução do espanhol: Caroline V Nogueira.

DIVISÃO IGUALITÁRIA DOS PAPÉIS PARENTAIS

“No momento atual, nenhuma política familiar se revelou verdadeiramente eficaz no que concerne à igualdade entre homens e mulheres. A divisão do trabalho entre cônjuges é sempre desigual em todos os países, inclusive os escandinavos. As responsabilidades cada vez mais pesadas que recaem sobre as mães não fazem mais do que agravar a situação. Somente a divisão entre os papéis parentais desde o nascimento do bebê poderia frear essa tendência. Mas, em nome do bem-estar da criança, tomamos o caminho inverso. Os homens mais machistas podem comemorar: o final do seu domínio não está previsto para amanhã. Eles estão ganhando a guerra subterrânea sem tomar as armas, sem dizer sequer uma palavra; os partidários do maternalismo se encarregaram de fazê-lo”.

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“Hoy en día, ninguna política familiar se ha revelado verdaderamente eficaz de cara a la igualdad entre hombres y mujeres. La división del trabajo entre cónyuges no es igualitaria en ningún país, incluidos los escandinavos. Las responsabilidades cada vez más pesadas que cargan las madres no hacen más que agravar la situación. Solo el reparto de los papeles parentales desde el nacimiento del bebé podría frenar esta tendencia. Pero, en nombre del bienestar del hijo emprendemos el camino inverso. Los hombres más machistas pueden estar contentos: el final de su dominio no está previsto para mañana. Ellos han ganado la guerra subterránea sin tomar las armas, sin decir siquiera una palabra; los partidarios del maternalismo se han encargado de ello”.

Elisabeth Badinter, La mujer y la madre: un libro polémico sobre la maternidad como nueva forma de esclavitud. Tradução do original em francês: Montse Roca. Tradução do espanhol: Caroline V Nogueira.

EXPERIÊNCIA DA MATERNIDADE

“(…) a maternidade não é nem da ordem do sabido naturalmente por instinto, nem do que pode ser instruído por meio da erudição, tampouco do que é imanente de um senso comum espontâneo. É uma experiência que convoca o saber inconsciente e que, assim sendo, depende de uma transmissão e também de uma criação singular que implica subjetivamente cada mulher no exercício da maternidade. Ou seja, ao mesmo tempo em que a maternidade implica uma repetição inconsciente entre gerações, também diz singularmente da invenção que pode ter lugar para uma mulher a partir da experiência de maternidade”.

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“(…) la maternidad no es ni del orden de lo sabido naturalmente por instinto, ni de lo que puede ser instruido por medio de la erudición, tampoco de lo que es inmanente de un sentido común espontáneo. Es una experiencia que convoca el saber inconsciente y que, por lo tanto, depende de una transmisión y también de una creación singular que implica subjetivamente a cada mujer en el exercicio de la maternidad. Es decir, al mismo tiempo que la maternidad implica una repetición inconsciente entre generaciones, también dice singularmente la invención que puede tener lugar para una mujer a partir de la experiencia de maternidad”.

Julieta Jerusalinsky, A criação da criança: brincar, gozo e fala entre a mãe e o bebê. Tradução para o espanhol: Caroline V Nogueira. 

O que está acontecendo agora que a mulher vem entrando dentro do sistema produtivo?

“(…) No mundo inteiro, a entrada recente da mulher no domínio público, na prática e independentemente de qualquer ideologia, está trazendo uma transformação das estruturas psíquicas tanto de homens quanto de mulheres e concomitantemente uma mudança das estruturas sócio-econômicas pelos caminhos mais surpreendentes, modificação esta que vem se realizando sem que seja quase percebida. Se não, vejamos: (…) na medida em que a mulher entra para o domínio público, o homem se vê obrigado a entrar para o domínio do privado, ajudando a companheira nos trabalhos domésticos e no cuidado com os filhos. Ora, esta simples mudança traz as mais profundas consequências. Em primeiro lugar, desmonta as articulações concretas e milenares que imbricavam a sociedade de classes com a cultura patriarcal. Desde que a criança nascia, na família tradicional, via o pai mandando e a mãe obedecendo. E, como as impressões que recebemos no primeiro ano de vida são indeléveis, pois permanecem não só no inconsciente mais profundo como ficam impressas até no próprio corpo, a criança tende a naturalizá-las. Assim, desde que nasce ela acha natural que uns mandem e outros obedeçam. E fica para sempre no fundo do inconsciente de homens e mulheres a aceitação de uma sociedade autoritária, coercitiva, desigual e portanto injusta.

(…) o que está acontecendo agora que a mulher vem entrando, em termos mundiais, dentro do sistema produtivo? Em primeiro lugar, desde que nasce, a criança já não vê mais o pai mandando e a mão obedecendo, mas sim dois centros de poder diferentes atuando com igual dignidade. Por isso, o menino passa a não ter mais o medo mortal do afeto, pois, em vez de se identificar com um opressor, se identifica com um aliado, um igual. E, assim, passa a sublimar menos e a ter mais integrada a sua racionalidade e a sua emoção. Portanto, passa a achar ‘natural’ não uma sociedade em que haja dominantes e dominados, mas uma sociedade pluralista e democrática em que há consenso, rodízio de lideranças, partilha e solidariedade. Para sempre, então, tenderá a rejeitar qualquer autoritarismo e qualquer opressão.

(…) À integração do público e do privado corresponde a do homem e da mulher, que, por sua vez, dão origem, nas novas gerações, à integração, dentro de cada ser humano, do corpo e da mente, da emoção e da racionalidade, superando, assim, a longo prazo o domínio hegemônico da racionalidade na ciência e no conhecimento a expensas da emoção e da ética. Assim, o dualismo platônico que caracterizou o mundo ocidental e a tecnologia nos últimos milênios pode ser superado, dando origem a novas formas de conhecimento mais integradas”.

ROSE MARIE MURARO, “A MULHER NO TERCEIRO MILÊNIO”.