“A CRIANÇA REAL NÃO É A CRIANÇA DO LIVRO”

*** ENTREVISTA EXCLUSIVA COM O PEDIATRA DANIEL BECKER *** 

Por Caroline V Nogueira (Jornalista/Psicóloga)

Dr. Daniel Becker dispensa apresentações. São poucos os Pediatras no Brasil com tamanha consciência da sua importância e de seu papel dentro das famílias com filhos. Idealizador da expressão PEDIATRIA INTEGRAL, que busca promover o bem-estar físico, emocional, mental, social e espiritual da criança e da família, nessa entrevista faz uma análise sobre a parentalidade praticada atualmente e nos instiga a refletir sobre diversas questões importantes relacionadas ao tema, como a formação do Pediatra e sua atuação no contexto familiar.

Para saber mais: https://pediatriaintegral.com.br/

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Dr. Daniel Becker dispensa presentaciones. Son pocos los Pediatras en Brasil con tanta conciencia de su importancia y de su papel dentro de las familias con hijos. Creador de la expresión PEDIATRÍA INTEGRAL, que busca promover el bienestar físico, emocional, mental, social y espiritual del niño y de la familia, en esa entrevista hace un análisis sobre la parentalidad practicada actualmente y nos instiga a reflexionar sobre diversas cuestiones importantes relacionadas al tema, como la formación del Pediatra y su actuación en el contexto familiar.

Para saber más: https://pediatriaintegral.com.br/

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Hoje em dia, o Pediatra exerce um papel central dentro das famílias com filhos, principalmente com filhos pequenos, ainda mais se forem pais de primeira viagem. Na sua opinião, qual deve ser o papel do Pediatra nesse contexto?

DB: Eu acho que o Pediatra tem que ter uma visão mais ampla sobre a infância, que é o que eu procuro cristalizar um pouco nessa expressão “Pediatria Integral”, de olhar para a criança no seu contexto social, ambiental, familiar, no seu padrão cultural, no seu padrão de consumo, na sua família, na capacidade que esses pais têm, na formação que esses pais têm para exercerem essa parentalidade de forma mais efetiva.

E o Pediatra como sendo aquele que, em primeiro lugar, as famílias confiam mais como o profissional de saúde da criança, e, em segundo, alguém que recebe as primeiras manifestações de problemas e alterações. Então, é um profissional de primeira linha, que vai receber crianças com problemas de qualquer tipo, físicos, mentais, emocionais, vão chegar para ele.

Ele tem que estar muito atento, não apenas às possibilidades terapêuticas, mas para a análise do contexto dessa criança. Olhar para essa família, olhar para a forma como ela está cuidando dos seus filhos, para as formas de negligência, que podem ser desde as mais sutis até as mais graves, para as questões escolares, para as questões alimentares, ambientais, para as questões, por exemplo, de confinamento, de excesso de uso de eletrônicos, de alimentação excessivamente industrializada.

Tudo isso são fatores que podem estar causando distúrbios na criança, sejam desde problemas de imunidade, infecções, até problemas de comportamento ou outros. Cabe ao Pediatra poder fazer esse diagnóstico ampliado, poder encaminhar essa criança para opções terapêuticas que sejam adequadas. Não apenas indicação, mas, muitas vezes, uma reavaliação desse estilo de vida da família, ou encaminhar para profissionais como Psicopedagogos ou Psicólogos e afins, que possam ajudar essa criança das mais diversas maneiras.

 

Historicamente, a formação médica sempre esteve voltada apenas para o lado biológico do paciente, isso está mudando? Qual a importância de inserir também aspectos psicológicos, sociológicos, históricos, etc, do paciente no currículo das faculdades de medicina?

DB: O ser humano é um ser integral, ele é um conjunto único onde interagem aspectos, influências e fatores ambientais, sociais, e também na sua própria individualidade, fatores psíquicos, mentais, emocionais, físicos. Desde o nível celular ao nível, digamos, espiritual, para falar de uma forma simbólica das coisas que a gente ainda não conhece e não compreende bem.

Então, a formação do Pediatra é, excessivamente, anatômica, fisiológica, farmacológica. A gente tem que ampliar as nossas capacidades e olhar para os nossos sujeitos de interação, que são os pacientes, e, no caso dos pediatras, as crianças, de forma mais abrangente, e considerá-los na sua totalidade, como pessoas. Considerá-los na sua totalidade contextual também, do ambiente onde eles vivem. Isso é fundamental para a compreensão integral dessa criança e fundamental para a escolha de alternativas terapêuticas que vamos fazer.

 

Como médico, qual a avaliação que você faz a respeito da parentalidade praticada atualmente?

DB: Não dá para julgar a parentalidade na atualidade de uma forma simplista. Existem as mais diversas apresentações de famílias, a gente tem desde famílias extremamente conscientes, extremamente bem formadas, bem capacitadas para cuidar de filhos, sabendo das prioridades dos dias de hoje, sabendo aquilo é bom e melhor para a criança, até pessoas completamente despreparadas e sem consciência da importância dessas coisas.

Você vê também hoje uma plena desconexão que há com a sabedoria tradicional, principalmente com a sensibilidade feminina do cuidado infantil, com as nossas mães, avós e bisavós, que já não estão presentes no âmbito das famílias. As famílias estão muito fragmentadas, e essa sabedoria transmitida se perdeu, então a gente tem uma desconexão que gera uma falta de noção e de bom senso. Pessoas que nunca lidaram com bebês e com crianças nas suas vidas, que nunca viram um bebê ser cuidado. É muito difícil você ter que saber cuidar de um bebê sem nunca ter feito isso. A gente não está diante de uma sabedoria instintiva, é uma sabedoria adquirida.

Então, as pessoas vão procurar na mídia – hoje principalmente na internet -, a substituição dessa sabedoria tradicional, e, muitas vezes, vão cair em manuais completamente obsoletos, ou em manuais que se opõem uns aos outros. Um diz que deve deixar (o bebê) chorar para dormir, outro diz que deve criar com apego, botar no peito a noite toda. As pessoas assumem uma dessas correntes e acabam se tornando muito fundamentalistas nessa corrente, radicalizando nessas instruções, querendo encaixar o filho no manual, quando não deve ser feito isso. A criança real não é a criança do livro, do texto da internet. Ficam se sentindo culpados, incompetentes, porque não conseguem os resultados que eles vêem nos seus manuais.

E também a gente tem hoje esse fenômeno da “parentalidade distraída” que é muito grave, das pessoas que têm pouca convivência com seus filhos, e a pouca convivência que têm está mediada pelo celular, isso está causando muito estrago. Essa pobreza de vínculo, mães que não olham nos olhos das crianças, uma coisa muito séria.

E também tem as famílias com pior acesso à informação, com pouco acesso à educação mesmo, famílias mais pobres da periferia, que não sabem coisas importantes, por falta de informação e por serem mais vulneráveis à influência da publicidade. Vão dar comida da pior qualidade, até porque também não têm acesso a uma comida mais saudável, legumes e frutas são mais caros que miojo e refrigerante, pessoas que têm pouco acesso a uma boa escola. Crianças que ficam, muitas vezes, trancafiadas em casa porque os pais vão trabalhar. Tem situação muito grave acontecendo na infância mais pobre, e mesmo na classe média, média-alta, é muita negligência. Há também famílias muito pobres movendo mundos para cuidar de seus filhos, e o fazem muito bem, contra um contexto de pobreza, opressão e ausência do Estado. E mais recentemente, surgem iniciativas de politicas públicas para a primeira infância, que têm potência de melhorar a vida e o futuro das crianças especialmente pelo apoio às famílias. Enfim, tem de tudo nessa parentalidade brasileira.

Eu vejo também um movimento virtuoso de pessoas procurando informação, procurando saber o que é melhor para os seus filhos, e conseguindo informação de qualidade, buscando dar prioridade para os seus filhos, buscando conviver mais, desligar o celular, dar comida melhor, conviver mais com a natureza, sair para as ruas, para o ar livre, curtir com a criança na praça, brincar.

Venho fazendo uma campanha contra essa obsessão com “aulinhas”, combater essa “adultização” da infância, de crianças que passam muitas horas na escola, fazem dever de casa por horas e, ainda por cima, tem aulas e aulas particulares, não conseguem brincar nunca, e aí vão se tornando pequenos adultos, e isso leva ao estresse tóxico, leva a crianças infelizes, adolescentes infelizes. A gente está vendo aí uma epidemia de depressão na adolescência, isso é uma coisa seríssima, nos nossos tempos atuais, e eu faço um trabalho realmente de divulgação dessas questões para tentar dar a minha contribuição para a melhoria da parentalidade. Eu vejo muitos movimentos virtuosos acontecendo, mas, é claro, a maior parte das pessoas ainda precisa de informação, de consciência e de reflexão sobre esses pontos.

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Hoy en día, el Pediatra ejerce un papel central dentro de las familias con hijos, principalmente con hijos pequeños, aún más si son padres de primer viaje. En su opinión, ¿cuál debe ser el papel del Pediatra en ese contexto?

DB: Creo que el Pediatra tiene que tener una visión más amplia sobre la infancia, que es lo que yo procuro cristalizar un poco en esa expresión “Pediatría Integral”, de mirar al niño en su contexto social, ambiental, familiar, en su patrón cultural , en su patrón de consumo, en su familia, en la capacidad que estos padres tienen, en la formación que estos padres tienen para ejercer esa parentalidad de forma más efectiva.

Y el Pediatra como aquel que, en primer lugar, las familias confían más como el profesional de salud del niño, y, en segundo, alguien que recibe las primeras manifestaciones de problemas y alteraciones. Entonces, es un profesional de primera línea, que va a recibir a los niños con problemas de cualquier tipo, físicos, mentales, emocionales, van a llegar a él.

Él tiene que estar muy atento, no sólo a las posibilidades terapéuticas, sino para el análisis del contexto de ese niño. Mirar a esa familia, mirar la forma en que está cuidando a sus hijos, a las formas de negligencia, que pueden ser desde las más sutiles hasta las más graves, para las cuestiones escolares, para las cuestiones alimentarias, ambientales, para las cuestiones por ejemplo, de confinamiento, de exceso de uso de electrónicos, de alimentación excesivamente industrializada.

Todo esto son factores que pueden estar causando disturbios en el niño, ya sean desde problemas de inmunidad, infecciones, hasta problemas de comportamiento u otros. Cabe al Pediatra poder hacer ese diagnóstico ampliado, poder encaminar a ese niño a opciones terapéuticas que sean adecuadas. No sólo indicación, pero a menudo una reevaluación de ese estilo de vida de la familia, o encaminar a profesionales como Psicopedagogos o Psicólogos y afines, que puedan ayudar a ese niño de las más diversas maneras.

 

Históricamente, la formación médica siempre estuvo orientada sólo hacia el lado biológico del paciente, eso está cambiando? ¿Cuál es la importancia de insertar también aspectos psicológicos, sociológicos, históricos, etc, del paciente en el currículo de las facultades de medicina?

DB: El ser humano es un ser integral, es un conjunto único donde interactúa aspectos, influencias y factores ambientales, sociales, y también en su propia individualidad, factores psíquicos, mentales, emocionales, físicos. Desde el nivel celular a nivel, digamos, espiritual, para hablar de una forma simbólica de las cosas que la gente todavía no conoce y no comprende bien.

Entonces, la formación del Pediatra es, excesivamente, anatómica, fisiológica, farmacológica. La gente tiene que ampliar nuestras capacidades y mirar a nuestros sujetos de interacción, que son los pacientes, y en el caso de los pediatras, los niños, de forma más amplia, y considerarlos en su totalidad, como personas. Considerarlos en su totalidad contextual también, del ambiente donde ellos viven. Esto es fundamental para la comprensión integral de ese niño y fundamental para la elección de alternativas terapéuticas que vamos a hacer.

 

Como médico, ¿cuál es la evaluación que usted hace respecto a la parentalidad practicada actualmente?

DB: No se puede juzgar la parentalidad en la actualidad de una forma simplista. En el caso de las familias, las personas tienen desde familias extremadamente conscientes, extremadamente bien formadas, bien capacitadas para cuidar de hijos, sabiendo de las prioridades de los días de hoy, sabiendo aquello es bueno y mejor para el niño, hasta personas completamente despreparadas y sin conciencia de la importancia de esas cosas.

Usted ve también hoy una plena desconexión que hay con la sabiduría tradicional, principalmente con la sensibilidad femenina del cuidado infantil, con nuestras madres, abuelas y bisabuelas, que ya no están presentes en el ámbito de las familias. Las familias están muy fragmentadas, y esa sabiduría transmitida se perdió, entonces la gente tiene una desconexión que genera una falta de noción y de sentido común. Las personas que nunca han tratado con los bebés y los niños en sus vidas, que nunca han visto a un bebé ser cuidado. Es muy difícil que tenga que saber cuidar de un bebé sin haber hecho nunca. La gente no está ante una sabiduría instintiva, es una sabiduría adquirida.

Entonces, la gente va a buscar en los medios – hoy principalmente en Internet -, la sustitución de esa sabiduría tradicional, y, a menudo, caen en manuales completamente obsoletos, o en los manuales que se oponen unos a otros. Un dice que debe dejar (el bebé) llorar para dormir, otro dice que debe crear con apego, poner en el pecho toda la noche. Las personas asumen una de esas corrientes y acaban volviéndose muy fundamentalistas en esa corriente, radicalizando en esas instrucciones, queriendo encajar al hijo en el manual, cuando no debe ser hecho. El niño real no es el niño del libro, del texto de Internet. Se sienten culpables, incompetentes, porque no consiguen los resultados que ellos ven en sus manuales.

Y también la gente tiene hoy ese fenómeno de la “parentalidad distraída” que es muy grave, de las personas que tienen poca convivencia con sus hijos, y la poca convivencia que tienen está mediada por el celular, eso está causando mucho estrago. Esta pobreza de vínculo, madres que no miran a los ojos de los niños, una cosa muy seria.

Y también tiene las familias con peor acceso a la información, con poco acceso a la educación misma, familias más pobres de la periferia, que no saben cosas importantes, por falta de información y por ser más vulnerables a la influencia de la publicidad. Van a dar comida de la peor calidad, incluso porque no tienen acceso a una comida más sana, verduras y frutas son más caros que miojo y refrigerante, personas que tienen poco acceso a una buena escuela. Los niños que se quedan a menudo encerrados en la casa porque los padres van a trabajar. Tiene una situación muy grave ocurriendo en la infancia más pobre, e incluso en la clase media, media-alta, es mucha negligencia. Hay también familias muy pobres moviendo mundos para cuidar de sus hijos, y lo hacen muy bien, contra un contexto de pobreza, opresión y ausencia del Estado. Y más recientemente, surgen iniciativas de políticas públicas para la primera infancia, que tienen potencia de mejorar la vida y el futuro de los niños especialmente por el apoyo a las familias. En fin, tiene de todo en esa parentalidad brasileña.

También veo un movimiento virtuoso de personas buscando información, buscando saber lo que es mejor para sus hijos, y consiguiendo información de calidad, buscando dar prioridad a sus hijos, buscando convivir más, apagar el teléfono, dar comida mejor, convivir más con la naturaleza, salir a las calles, al aire libre, disfrutar con el niño en la plaza, jugar.

En el caso de los niños que pasan muchas horas en la escuela, hacen un deber de casa por horas y, además, tienen clases y clases particulares, no logran jugar nunca, y ahí se van haciendo pequeños adultos, y eso lleva al estrés tóxico, lleva a niños infelices, adolescentes infelices. La gente está viendo allí una epidemia de depresión en la adolescencia, eso es una cosa serísima, en nuestros tiempos actuales, y yo hago un trabajo realmente de divulgación de esas cuestiones para intentar dar mi contribución a la mejora de la parentalidad. Yo veo muchos movimientos virtuosos que suceden, pero, por supuesto, la mayoría de la gente todavía necesita información, conciencia y reflexión sobre estos puntos.

14/11/2018

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