O que está acontecendo agora que a mulher vem entrando dentro do sistema produtivo?

“(…) No mundo inteiro, a entrada recente da mulher no domínio público, na prática e independentemente de qualquer ideologia, está trazendo uma transformação das estruturas psíquicas tanto de homens quanto de mulheres e concomitantemente uma mudança das estruturas sócio-econômicas pelos caminhos mais surpreendentes, modificação esta que vem se realizando sem que seja quase percebida. Se não, vejamos: (…) na medida em que a mulher entra para o domínio público, o homem se vê obrigado a entrar para o domínio do privado, ajudando a companheira nos trabalhos domésticos e no cuidado com os filhos. Ora, esta simples mudança traz as mais profundas consequências. Em primeiro lugar, desmonta as articulações concretas e milenares que imbricavam a sociedade de classes com a cultura patriarcal. Desde que a criança nascia, na família tradicional, via o pai mandando e a mãe obedecendo. E, como as impressões que recebemos no primeiro ano de vida são indeléveis, pois permanecem não só no inconsciente mais profundo como ficam impressas até no próprio corpo, a criança tende a naturalizá-las. Assim, desde que nasce ela acha natural que uns mandem e outros obedeçam. E fica para sempre no fundo do inconsciente de homens e mulheres a aceitação de uma sociedade autoritária, coercitiva, desigual e portanto injusta.

(…) o que está acontecendo agora que a mulher vem entrando, em termos mundiais, dentro do sistema produtivo? Em primeiro lugar, desde que nasce, a criança já não vê mais o pai mandando e a mão obedecendo, mas sim dois centros de poder diferentes atuando com igual dignidade. Por isso, o menino passa a não ter mais o medo mortal do afeto, pois, em vez de se identificar com um opressor, se identifica com um aliado, um igual. E, assim, passa a sublimar menos e a ter mais integrada a sua racionalidade e a sua emoção. Portanto, passa a achar ‘natural’ não uma sociedade em que haja dominantes e dominados, mas uma sociedade pluralista e democrática em que há consenso, rodízio de lideranças, partilha e solidariedade. Para sempre, então, tenderá a rejeitar qualquer autoritarismo e qualquer opressão.

(…) À integração do público e do privado corresponde a do homem e da mulher, que, por sua vez, dão origem, nas novas gerações, à integração, dentro de cada ser humano, do corpo e da mente, da emoção e da racionalidade, superando, assim, a longo prazo o domínio hegemônico da racionalidade na ciência e no conhecimento a expensas da emoção e da ética. Assim, o dualismo platônico que caracterizou o mundo ocidental e a tecnologia nos últimos milênios pode ser superado, dando origem a novas formas de conhecimento mais integradas”.

ROSE MARIE MURARO, “A MULHER NO TERCEIRO MILÊNIO”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.