“NÃO JOGUE SEU FILHO NO LIXO”

“Não jogue seu filho no lixo”: essa frase estampou a capa de um folheto que em 2009 divulgou o programa lançado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, justificado pelo número crescente de casos que ocorriam no Estado. A Justiça supunha ainda que a quantidade deveria ser bem maior, visto que não eram contabilizadas as ocorrências sem notificações. A frase vinha seguida de outra: “dar em adoção é um sublime ato de amor”. Mídias nacionais e internacionais veiculam quase semanalmente casos assim. Incontáveis.

Muito já foi falado sobre crianças abandonadas e seus destinos. Historicamente, a maternidade nunca foi uma experiência tranquila. Se por um lado os registros nos revelam que ser mãe pode ser um exercício de amor, o que certamente exigirá empenho e construção num contexto em que nada está garantido; por outro, sua travessia, por vezes inquietante, costuma estar acompanhada de certo estigma, senão de mistério, certamente de horror ao que tudo dela possa resultar. Por essa razão, diversas foram as tentativas de alcançá-la, desvendá-la e, enfim, puni-la.

Tornar-se mãe não é tarefa fácil para nenhuma mulher, ainda que no projeto sobrem desejo e investimento. Nesse contexto, importante saber que a mulher é, antes de tudo, um sujeito de desejo capacitado para as mais variadas formas de simbolização. Seus processos inconscientes predominam sobre os biológicos, surgindo daí incontáveis modos de amar (ou não amar) e compreender a vida.

Se seguirmos a trajetória da maternidade no ocidente, desde as civilizações greco-romanas até os dias atuais, é possível constatar que o abandono de recém-nascidos sempre existiu. Segundo Kalinsky e Cañete (2010), “o infanticídio é tão antigo como a própria história da humanidade”. O que não quer dizer, com isso, que essas práticas devam ser consideradas como “algo natural da espécie”. Certamente não. A mensagem que nos é passada por nossas ancestrais diz respeito muito mais à constante dificuldade humana em saber lidar com o inapreensível da vida, aquilo que consideramos impossível de elaborar – e que certamente é parte constituinte da maternidade: o mistério.

Antropólogos, sociólogos e historiadores atribuíram motivos diversos ao fenômeno do abandono, num registro que engloba tanto causas econômicas quanto ideológicas, históricas, culturais e até mesmo demográficas. Mas, ao que parece, esse costume não estaria sujeito nem a tempos históricos específicos, já que pode ser observado em absolutamente todos; nem, tampouco, a pretensas razões ideológicas ou culturais, pois aparentemente também independe desses fatores.

As causas, na verdade, podem ser as mais impensáveis – trata-se de compreender cada mulher em sua singularidade. Complicado catalogar. Nesse universo, a única certeza que temos é que à mulher que comete esse ato cabe apenas julgamento e condenação. Sabemos também que essa atitude facilita seu enquadramento em certos quadros psicopatológicos, pois entende-se que para cometer tal atitude a mulher só pode estar completamente “louca”.

De fato, certos episódios característicos do período pós-parto provavelmente justificariam alguns casos de abandono, como por exemplo: depressão pós-parto ou psicose puerperal. De todo modo, a grande maioria das pessoas sequer questiona ou mesmo busca compreender que a recusa ao próprio filho é parte de um processo bem mais amplo de abandono, atravessado por diversos fatores – e não apenas o biológico. Maria Antonieta Pisano Motta (2008) defende que a recusa ao filho é um “fato social total”, atravessado por variáveis históricas, biológicas, psicológicas, culturais e socioeconômicas.

A autora comenta sobre o conjunto de elementos simbólicos e imaginários a partir dos quais teria sido forjado o modelo de maternidade. Para ela, o fato de não questionarmos os conceitos de “boa mãe” e de “amor materno” (fundamentados em mitos e crenças e recriações pessoais) tem acarretado consequências trágicas às mulheres – e, consequentemente, produzido sérios reflexos sobre as crianças. Como não há amor sem ambivalência, nem mesmo para as mães, é diante dessa trama sinuosa de contradições que provavelmente muitas delas decidem abandonar seus filhos – em rios, nas antigas rodas de expostos, em vias públicas ou mesmo nos lixões.

Certas transgressões maternas já foram muito bem tratadas por Elizabeth Badinter (1985). A autora acredita que é difícil explicar certas “falhas do amor materno”, sendo esses conflitos apresentados por algumas mães uma comprovação de que a pulsão de vida teria uma importância bem maior que o “instinto materno” – este poderia estar sujeito a diversas situações, não sendo ordenado por uma “natureza feminina”.

Badinter explica que foram necessários quase cem anos e ao menos três severos discursos (econômico, filosófico e outro exclusivo às mulheres) para que se conseguisse substituir “o egoísmo e a indiferença das mães pelas experiências e prazeres do amor materno”. Esses discursos impuseram às mulheres a obrigação de serem mães antes de tudo. Foi necessário apelar para o seu senso de dever, culpá-la e ameaçá-la para reconduzi-la à sua função maternante – considerada natural e espontânea.

Moralistas, administradores e médicos expunham seus argumentos em incontáveis publicações, recomendando às mães o cuidado pessoal aos filhos e ordenando-lhes amamentá-los (até então o recurso às amas de leite era muito comum). Segundo Badinter, na prática, os comportamentos tardaram a se alterar, pois as mulheres reagiram de maneira lenta e diversa: “mais uma vez, foi o interesse da mulher que ditou o comportamento da mãe”.

Motta defende que entregar um filho em adoção não é abandonar, apesar de que, histórica e psicologicamente, a separação entre mãe e filho no processo de entrega para adoção sempre foi um tabu a ser escondido. Dolto (1998) defende a mesma ideia ao argumentar que, como a maternidade seria incompatível com a realidade de algumas mulheres, o ato de entregar o filho em adoção não seria um abandono. A autora questiona: “dar meios de viver é abandonar?”. Em prol dessa defesa, acredita que é justamente por amar o filho que a mãe vai doá-lo para adoção. Sobre isso, Motta esclarece algo que é fundamental nesse contexto:

“Não há evidências que justifiquem a pressuposição de que a difícil experiência de entregar um filho em adoção se dilua com o tempo até extinguir-se, pois o que se verifica é que a tristeza e o remorso frequentemente se fazem presentes quando tudo parece estar concluído. A separação entre a mãe e a criança parece vir acompanhada de um luto sem fim” (p. 27).

Para a autora, cuidar da mãe é, sobretudo, cuidar do filho. Por isso, não acolhê-la seria colaborar para o agravamento de um problema social (e Histórico) que é de difícil abordagem e solução: o abandono de crianças. Nessa conjuntura, a autora acredita numa intervenção direta a essas mães: “sabemos que o trabalho junto a estas mulheres, advindo da compreensão apurada do processo em que estão mergulhadas, poderia evitar a entrega e o abandono de muitas crianças”.

Oferecer acolhimento e intervir precocemente é, sem dúvida, um dos propósitos mais relevantes no exercício da profissão do psicólogo que atua em maternidade, sobretudo num contexto em que o aumento de ocorrências de abandono se tornou objeto de política pública. Myriam Szejer (1999) comenta:

“sofrimento, no sentido analítico do termo, é sofrimento de palavra. Seja ele do corpo ou da alma, é sempre sofrimento simbólico, e a necessidade da palavra é tão real que o próprio funcionamento, integridade e organização do corpo podem se ver prejudicados. Essa palavra se dirige a quem for possível por intermédio do sintoma, e é por isso que a escuta analítica pode ser exercida desde os primeiros momentos da vida, com a condição de que o analista se desloque até a maternidade” (p. 13).

 O programa “Não jogue seu filho no lixo – dar em adoção é um sublime ato de amor” traz à tona essa delicada e histórica questão, que certamente comove a todos. Diversos são os temas imbricados nesse enredo, cuja trama envolve não apenas a maternidade e suas idiossincrasias, como também a paternidade, as relações familiares, a saúde mental, a Justiça, as questões econômicas, religiosas, históricas, sócio-culturais e ideológicas.

Tentar compreender quais enigmas envolveriam esse contexto é, certamente, um grande desafio. Neste movediço terreno de incertezas, sabemos apenas que tornar-se mãe não é tarefa fácil para nenhuma mulher. Trazer à tona certos mitos e tabus que permeiam a singular relação entre uma mãe e seu bebê é extremamente necessário, pois a maternidade, essa grande desconhecida, ainda hoje se apresenta como um inesgotável campo de investigação.

Caroline V Nogueira

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