FIGURAS DA MATERNIDADE EM CLARICE LISPECTOR

“A figura da mulher que não pertence à sua vocação biológica é freqüente no universo de Clarice Lispector: Macabéia (LISPECTOR, 1984) tem os ovários murchos; G.H. (idem, 1996) os tem secos; Laura (idem, 1999) tem, no fundo de seus olhos, um pequeno ponto ofendido que revela a falta de filhos, os filhos que ela nunca teve; e assim é também Joana (idem, 1995), incapaz de fazê-los viver. As mulheres, em Clarice Lispector, parecem recuar diante do horror da maternidade, horror marcado pela carne viva, pelo orgânico, pelo que do real é refratário ao simbólico.

(…) Não que as mães estejam ausentes de seu universo, mas a maternidade aparece, na obra de Clarice, de modo particular: as mulheres são, em sua maioria, estéreis, abortadoras, incapazes de serem mães. A maternidade é freqüentemente ligada ao mundo orgânico, à matéria viva. Que se pense em A paixão segundo G.H., no qual a maternidade é situada não do lado de G.H., mas do lado da barata — G.H. tem os ovários vazios, enquanto a barata os tem férteis; ela é abortadora, a barata, mãe de milhares de filhos.

(…)  No conto “A menor mulher do mundo” (LISPECTOR, 1999), temos uma figura bastante significativa da maternidade na obra de Clarice Lispector e do seu laço com o orgânico e com o primitivo. (…) Pequena Flor revela que no interior das casas o amor traz em si um resto não assimilável, situado do lado do excesso, da crueldade, uma outra face do amor materno é assim revelada. Ora isso nos faz pensar a maternidade diferentemente: os animais indicam um tempo fora do tempo, pois fora da linguagem, o inumano, o selvagem, o gozo infinito e desregrado. Segundo Clarice, os animais não substituem jamais uma coisa por outra (LISPECTOR, 1999a). Assim, a maternidade não se reduz à cadeia de substituição de uma equivalência simbólica, ao contrário, a maternidade traz nela um resto que não é assimilável, situado do lado do excesso, que não faz série com os outros objetos. Outra face da maternidade é, deste modo, desvelada, ligada menos à série simbólica do que ao que não se encadeia e que, ao contrário, irrompe como evento único, impronunciável. Por isso: “Mãe é doida. É tão doida que dela nasceram filhos. Eu me alimento com ricas comidas e tu mamas em mim leite grosso e fosforescente. Eu sou o teu talismã” (idem, p. 110).

(…) Em Perto do coração selvagem (LISPECTOR, 1995), primeiro livro de Clarice, já vemos tomar forma esta concepção curiosa da maternidade. Em um capítulo intitulado “A mulher da voz e Joana”, a protagonista fascina-se pela voz de uma mulher que parece chamar em um apelo intransitivo, sem objeto. Por intermédio da voz desta mulher, Joana descobre o segredo de simplesmente viver. A mulher da voz, com sua cintura engrossada pela maternidade, com sua voz vinda do fundo da garganta, como se se tratasse de uma voz de antes do significante, de antes da palavra, parece encarnar nela mesma o “selvagem coração da vida”.

Ela é aquela que segue seu destino biológico de mulher, mas o curioso é que ele não se recobre inteiramente pela reprodução — não se trata de ser mãe, mas simplesmente de ser. “O principal — incluindo o passado, o presente e o futuro — é que estava viva. Esse é o pano de fundo da narrativa”, escreve Clarice sobre a mulher da voz (idem, p.87) A mulher simplesmente fêmea não é aquela que espera um filho, é aquela que não espera nada, que é a vida que corre em seu corpo. Podemos dizer que o “selvagem coração da vida” situa-se, em Clarice, do lado da mãe. Concebe-se, assim, o feminino como origem, mas segundo uma posição subjetiva que engaja uma relação outra à maternidade, apontando para uma lógica além do falo. Clarice contrapõe à imagem da mãe como a mulher puramente mulher, perfeitamente mulher, uma outra imagem na qual a mulher corresponde à vida no que ela tem de horror e de inumana — a vida crua.”

CRISTINA MARCOS, “FIGURAS DA MATERNIDADE EM CLARICE LISPECTOR OU A MATERNIDADE PARA ALÉM DO FALO”, texto completo.

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