No começo era a mãe: a maternidade no tempo dos Hominídeos (4 milhões – 100 a 35 mil anos)

“No começo era a mãe. O Verbo veio muito depois, em épocas bem mais recentes. O centro não só dos grupos de proto-humanos mas também dos mamíferos em geral e principalmente dos ungulados, onde se situam os primatas, era a dupla mãe-filho. Ao contrário do pensamento convencional de que os bandos animais se reúnem em torno de um macho dominante que escraviza os outros e se apropria das fêmeas, o que aparece hoje é que estes grupos são matricêntricos e matrilocais, isto é, vão seguindo a sua linhagem feminina (…)”.

(…) A ideia que hoje temos deles, os “homens das cavernas”, é a de predadores brutais e cruéis, batendo-se uns aos outros com clavas e arrastando as mulheres pelos cabelos. Mas a realidade parece ter sido outra. Eles podem ter siso sociáveis e alegres, vivendo em sociedades centradas em mães e crianças. Como os chipanzés, os hominídeos eram altruístas, e as mães passavam a maior parte de suas vidas alimentando, cuidando e educando seus filhos. O laço mãe/filhos devia ser ainda mais forte que entre os chipanzés ou gorilas, pois os bebês humanos custam a se desenvolver mais do que os macacos.

(…) Podemos também levantar a hipótese de que as primeiras mulheres eram economicamente independentes, dada a sua centralidade, e que só entravam em contato com machos que pudessem ser cooperadores, e não violentos e competitivos, isto é, que compartilhassem com elas os alimentos e não as coagissem nem às crianças recém-nascidas. Não se conhece quando a espécie humana descobriu o papel do homem na procriação, mas isto deve ter acontecido em tempos muito recentes, provavelmente há uns dez mil anos.

(…) A patrilocalidade e o patriarcado devem ter entre suas causas a descoberta do papel do homem na reprodução, o que permitiria a estes controlar a fecundidade das mulheres e, portanto, controlar as próprias mulheres, porque o poder advinha do controle da reprodução. Mas enquanto isso não aconteceu, a centralidade dos grupos ficou com as mulheres.

(…) Cada desenvolvimento técnico, a invenção dos instrumentos, o controle do fogo, a invenção dos cestos, o começo do período da caça e depois a invenção da roda iam separando cada vez mais os primitivos humanos da natureza e de suas origens animais. Da imersão na natureza os humanoides iam passando a uma posição de domínio e controle sobre o meio ambiente.

Faltava apenas um degrau para ser ultrapassado rumo à plena humanidade: a capacidade de abstração que daria origem à fala. Muitos acreditam que os australopitecos, os primeiros hominídeos, já possuíam uma linguagem; outros, que esta se desenvolveu na época dos homens de Neandertal ou de Cro-Magnon, mas qualquer que tenha sido a época desse desenvolvimento, uma coisa parece certa: a linguagem deve ter sido aprendida na primeira infância. (…) Assim, a hipótese de que a linguagem teria se desenvolvido a partir da necessidade de comunicação entre os machos caçadores não parece válida, e, sim, aquela que diz que ela se originou da comunicação entre as mães e seus filhos pequenos.

(…) As primeiras formas de humanidade, em vez de terem sido selvagens e cruéis, hordas de machos rebeldes contra um pai tirano e violadores de mulheres, que trocavam estas mesmas mulheres entre si como mercadorias, não passam de fruto do imaginário patriarcal. Este tipo de sociedade primitiva provavelmente nunca existiu. Os coletores/caçadores parecem ter vivido em sociedades fluidas, harmoniosas e igualitárias. Não que não possuíssem agressividade nem tivessem experimentado conflito. Mas desenvolveram, certamente, mais capacidade de cooperação do que competição. Uma sociedade que precisava basicamente proteger a vida dos recém-nascidos e da cooperação na divisão de alimentos não teria sobrevivido na intensa agressividade em que nossa imaginação de hoje os concebe. Esta glória da dominação extrema do homem e do autoritarismo foi deixada para mais tarde: para o Homo sapiens e para a futura civilização”.

ROSE MARIE MURARO, “A MULHER NO TERCEIRO MILÊNIO”, Record: Rosa dos Tempos, RJ, 2002.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.