HISTÓRIA DAS MÃES E DA MATERNIDADE NO OCIDENTE

“Existe uma história das mães? A maternidade, certamente, já não é vista como um feito da natureza atemporal e universal, constitui parte integrante da cultura e está em contínua evolução. Mas segue sem ser objeto de investigações verdadeiras. As ciências humanas – antropologia, sociologia, demografia – se interessam indiretamente por ela, para compreender as transformações da família ou as variações na fecundidade. Por sua vez, o movimento feminista inspirou a história das mulheres, mas numa vinculação direta com a sua emancipação. Se as mães e a maternidade não saem das sombras, talvez seja porque a produção de filhos sempre foi (e segue sendo) uma questão de poder. O controle da fecundidade feminina é o lugar por excelência da dominação de um sexo sobre o outro. Este tema segue provocando muitas discussões incômodas.

Podemos contar essa história em quatro sequências. Na Antiguidade, a palavra maternidade não existia em grego, nem em latim. Não obstante, a função materna está muito presente nos mitos e é objeto de considerações importantes por parte de médicos e filósofos. O surgimento da palavra maternitas no século XII marca um momento de início: os clérigos inventaram uma palavra simétrica a paternitas, para caracterizar a função da Igreja no mesmo momento em que se produzia uma especial expansão do culto de Notre-Dame, como se necessitassem reconhecer uma dimensão espiritual da maternidade, sem deixar de desprezar a maternidade carnal das filhas de Eva. Esta dicotomia marca os séculos cristãos do Antigo Regime. Na época das Luzes, as duas noções parecem aproximar-se, para construir um modelo terrestre da boa mãe, que segue submetida ao pai, mas que é valorizada porque gera filhos. A função materna absorve a individualidade da mulher. Durante o século XX, o triunfo da medicina e o impacto cada vez maior do poder político fazem com que a maternidade entre em uma etapa de conflitos cujo desencadeamento é imprevisível e segue sem ser considerado pelo feminismo”.

YVONNE KNIBIEHLER, “HISTORIA DE LAS MADRES Y DE LA MATERNIDAD EN OCCIDENTE”, Buenos Aires, Ediciones Nueva Visión, 2000. Tradução do original em francês: Paula Mahler. Tradução do espanhol: Caroline V Nogueira.

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