Maternidade no tempo do Homo Sapiens (200 – 35 mil anos)

“(…) Sabe-se que a paternidade era desconhecida nos primeiros tempos. Portanto, os primeiros grupos de seres humanos foram matrilocais e matrilineares. (…) Provavelmente a ordem social era fluida e permissiva, seja com casamentos permanentes, semi-permanentes ou casuais. As crianças ficavam com as mães, ou, no caso da morte destas, com as outras mulheres da família. A vida poderia ser nômade, seminômade ou sedentária.

(…) Em geral, não parece ter havido chefes ou líderes, mas sim rodízio de poder. (…) A vida desses grupos em geral não era dura, pois, assim que o alimento escasseava, migravam para região mais fértil.

Certamente havia uma divisão sexual do trabalho, mas, na maioria das vezes, ela tendia a ser arbitrária. Em umas sociedades, as mulheres faziam cerâmica e os homens pescavam; em outras, passava-se o contrário. Em outras ainda, a demarcação das tarefas de cada sexo era bastante rígida. (…) Nessas sociedades, casar é um ato de vida ou morte, pois um homem prefere morrer a fazer trabalho de mulher e vice-versa. Em outras, não. Os mesmos trabalhos podem ser feitos ciclicamente por um ou outro sexo.

Esta divisão pode ter sido originada do fato de, por ficarem grávidas e se acostumarem a alimentar e proteger os filhos, as mulheres tivessem tendência a alimentar o grupo todo, enquanto os homens caçavam e pescavam mais para si mesmos. Em muitas sociedades atuais, as coisas ainda se passam dessa maneira, sobretudo nas sociedades avançadas, em que as mulheres não só trabalham fora como dentro de casa, cumprindo uma dupla jornada de trabalho que nunca existiu para o sexo masculino. É possível, assim, que a divisão sexual de trabalho tenha começado porque os homens queriam uma definição de suas funções como as mulheres tinham a sua, através da maternidade.

Neste longínquo passado, as tarefas femininas provavelmente possuíam mais valor do que as masculinas; porém, no mundo patriarcal, a situação se inverte, e trabalho da mulher, ainda que seja igual ao do homem, tende a ser menos valorizado, talvez mesmo por causa desta ‘inutilidade’ do homem numa sociedade em que não se conhecia exatamente a sua função na procriação.

Em quase todas as sociedades, as mulheres sempre trabalharam mais do que os homens. (…) Como os bororos, os nsaw da África diziam de um homem solteiro que ele tinha que trabalhar tão pesado como uma mulher…

Foram também as mulheres que descobriram a arte de plantar grãos férteis que eram colhidos sazonalmente e começaram a plantá-los com as próprias mãos assim que isto se tornou necessário. (…) foi assim que as mulheres se tornaram as primeiras horticultoras.”

ROSE MARIE MURARO, “A MULHER NO TERCEIRO MILÊNIO”, Rio de Janeiro, Record, 2002.

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