MATERNIDADE E COLETIVIDADE

“(…) as mulheres dão à luz quando a coletividade as ajuda a receber e a criar seus filhos. Estes têm que ser desejados não somente por quem os traz ao mundo, nem apenas pelo casal, mas sim por uma coletividade solidária. A maternidade não pertence unicamente à vida privada, não é somente expressão de um desejo feminino, nem do amor de um casal, responde a uma necessidade social primordial: a renovação das gerações, a sobrevivência do grupo.”

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“(…) las mujeres dan a luz cuando la colectividad las ayuda a recibir y a criar a sus hijos. Éstos tienen que ser deseados no sólo por la que los trae al mundo, ni siquiera por la pareja, sino por uma colectividad solidaria. La maternidad no pertence unicamente a la vida privada, no es solamente la expresión de un deseo femenino, ni del amor de una pareja, responde a una necesidad social primordial: la renovación de las generaciones, la supervivencia del grupo.”

Yvonne Knibiehler, em Historia de las madres y de la maternidad en Occidente

A MATERNIDADE É UMA PARADOXAL DESPEDIDA

“Mãe é doida. É tão doida que dela nasceram filhos.”

Clarice Lispector

Só quando me tornei mãe foi que percebi o quanto a maternidade envolve saber lidar com despedidas. Quando recebemos o emocionante “positivo”, já começamos a nos despedir do corpo, das roupas e do estilo de vida anterior. – Bye, Bye, até outro dia, ou, na maioria dos casos, até nunca mais! Depois, vem o parto e somos obrigadas a nos despedir do bebê dentro da barriga, e, claro, da barriga em si e de toda aquela sua excelência – entre mimos, paparicos e prioridades. – Au revoir!

Daí, o bebê começa a andar e, rapidamente, temos de nos despedir da criança de colo. Depois, vem a escola e somos obrigadas a dizer “até breve!” ao(à) nosso(a) pequeno(a) que ficava em casa o tempo todo, sob nosso olhar cuidadoso. Estamos tão perplexas com tudo, que nem percebemos direito: aquele cheirinho de loção infantil e pomada anti-assadura que ocupavam toda a casa já deram lugar ao suor do futebol, do balé ou do caratê. Eles foram crescendo, crescendo, crescendo, e tudo isso diante dos nossos olhos atônitos de mãe.

Até que um dia eles seguiram o movimento natural: saíram de casa para morar sozinhos, com os amigos, ou até mesmo em outro país, casaram, enfim, não importa. O fato é que eles se foram. E seguimos nos despedindo, de espanto em espanto. Para nosso consolo, algumas despedidas podem ser temporárias. Como, por exemplo, com certa dose de sacrifício, talvez seja possível voltar a caber naquele jeans juvenil de outrora. Outras, no entanto, não têm mais volta. E seguimos na tentativa de aceitar que muitos dos nossos antigos sonhos também já não nos cabem mais, e só nos resta dar aquele definitivo “adeus!”. – Ciao, ciao!

Em muitos casos, essas frequentes “despedidas maternas” são vivenciadas envoltas por uma melancólica saudade: do que poderíamos ter sido e não fomos, do que vivemos, e do que ainda não vivemos, da experiência única de potência que é gerar um outro ser, da importância central que éramos na vida de nossos pequenos, enfim, são muitos os implicadores – e nada mais natural. No entanto, o paradoxo da despedida está justamente no fato de que nela também há espaço para o novo, basta que tenhamos a coragem de abrir essa brecha. Eis um dos nossos maiores desafios.

Quando nos tornamos mães, somos cooptadas a viver no universo das contradições, do qual nunca conseguiremos sair, e no qual jamais estaremos presas. Esse é o universo amoroso da maternidade. Entre novidades, despedidas e saudades, importa-nos compreender que nós, mães, somos passagem – dentre tantas outras importâncias. Nossos filhos nos atravessam (vêm de uma longa viagem “do mundo invisível ao visível”*), e devemos deixá-los seguir. Somos travessia, apego e liberdade. Somos essa paradoxal despedida. – Hasta la vista!

Caroline V Nogueira

Psicóloga/Jornalista/Tradutora

www.neuronio49.com.br

@carolinevnogueira

 

*John Paul Downhill

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“Madre es loca. Es tan loca que de ella nacieron hijos”.

Clarice Lispector

 

Sólo cuando me convertí en madre, me di cuenta de cuánto la maternidad implica saber lidiar con despedidas. Cuando recibimos el emocionante “positivo”, ya empezamos a despedirnos del cuerpo, de la ropa y del estilo de vida anterior. -¡Bye, Bye, hasta otro día, o, en la mayoría de los casos, hasta nunca más! Después, viene el parto y estamos obligadas a despedirnos del bebé dentro de la barriga, y, por supuesto, de la barriga en sí y de toda su excelencia – entre mimos, agrados y prioridades. -¡Au revoir!

Entonces, el bebé comienza a caminar y, rápidamente, tenemos que despedirnos del niño en nuestros brazos. Después, viene la escuela y, una vez más, estamos obligadas a decir “¡hasta pronto!” a nuestro(a) pequeño(a) que se quedaba en casa todo el tiempo, bajo nuestra mirada cuidadosa. Estamos tan perplejas con todo, que ni siquiera percibimos: aquel olor de perfume infantil y crema pañal que ocupaban toda la casa ya dieron lugar al sudor del fútbol, ​​del ballet o del karate. Ellos fueron creciendo, creciendo, creciendo, y todo eso ante nuestros ojos atónitos de madre.

Hasta que un día siguieron el movimiento natural: salieron de casa para vivir solos, con los amigos, o incluso en otro país, se casaron, en fin, no importa. El facto es que se fueron. Y seguimos despediéndonos, de espanto en espanto. Para nuestro consuelo, algunas despedidas pueden ser temporales. Como, por ejemplo, con cierta dosis de sacrificio, tal vez sea posible volver a caber en los pantalones vaqueros de antaño. Otras, sin embargo, no tienen más vuelta. Y seguimos en el intento de aceptar que muchos de nuestros viejos sueños tampoco nos caben más, y sólo nos queda dar aquel definitivo “!adiós¡”. -¡Ciao, ciao!

En muchos casos, esas frecuentes despedidas maternas son vivenciadas envueltas por una melancólica nostalgia: de lo que podríamos haber sido y no fuimos, de lo que vivimos, y de lo que aún no vivimos, de la experiencia única de potencia que es generar otro ser, de la importancia central que éramos en la vida de nuestros pequeños, en fin, son muchos los implicadores -y nada más natural. Sin embargo, la paradoja de la despedida está justamente en el facto de que en ella también hay espacio para lo nuevo, basta que tengamos el coraje de abrir esa brecha. Es uno de nuestros mayores desafíos.

Cuando nos volvemos madres, somos cooptadas a vivir en el universo de las contradicciones, del que nunca conseguiremos salir, y en el que jamás estaremos presas. Este es el universo amoroso de la maternidad. Entre novedades, despedidas y nostalgia, nos importa comprender que nosotras, madres, somos pasaje -entre tantas otras cosas importantes. Nuestros hijos nos atravesan (vienen de un largo viaje “del mundo invisible al visible”*), y debemos dejarlos seguir. Somos travesía, apego y libertad. Somos esa paradojal despedida. -¡Hasta la vista!

Caroline V Nogueira

Psicóloga/Jornalista/Tradutora

www.neuronio49.com.br

@carolinevnogueira

 

*John Paul Downhill

 

FUNÇÃO MATERNA

“Uma mãe suficientemente boa, ou passavelmente boa, ou não excessivamente persecutória, é aquela que permitirá que seu infans e depois seu bebê sempre se encontre com o mundo como uma fonte que consolida a força de seu sentimento de existir e a força de seu desejo de viver. Em outras palavras, a função materna – função que pode ser exercida pelo pai – consiste em zelar para que a apresentação do mundo ao infans e depois ao bebê se dê de tal forma que ele possa encontrar o mundo de maneira criativa, harmoniosa”.

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FUNCIÓN MATERNA | “Una madre suficientemente buena, o pasablemente buena, o no excesivamente persecutoria, es aquella que permitirá que su infans y después su bebé siempre se encuentre con el mundo como una fuente que consolida la fuerza de su sentimiento de existir y la fuerza de su deseo de vivir. En otras palabras, la función materna – función que puede ser ejercida por el padre – consiste en velar para que la presentación del mundo al infans y después al bebé se dé de tal forma que pueda encontrar el mundo de manera creativa, armoniosa”.

HEITOR O’DWYER DE MACEDO. CARTAS A UMA JOVEM PSICANALISTA. Tradução: Caroline V Nogueira.

Família na contemporaneidade

“Não importa se se trata de uma mãe solteira com seu único filho, de uma família resultante de cinco casamentos, com dez filhos vindos de todas as uniões anteriores, de um par homossexual que resolveu adotar uma criança; seja como for, cabe aos adultos que assumiram o encargo de uma criança, o risco e a responsabilidade de educá-la e prepará-la para a vida, na medida em que isto é possível. Mas a dívida para com a família perdida nos deprime, nos faz sentir que somos sempre insuficientes como pais, mães e educadores, já que de saída estamos fora do modelo da família tal como ‘deveria ser’. A mesma cultura moderna que nos manda fazer tudo diferente do que nossos pais e mães fizeram – e assim nos mantêm ao desabrigo de toda transmissão da experiência – nos diz que o ideal, perdido como todo ideal, era que fôssemos exatamente como nossos pais e mães ou, mais difícil ainda, como nossos avós”.

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“No importa si se trata de una madre soltera con su único hijo, de una familia resultante de cinco matrimonios, con diez hijos venidos de todas las uniones anteriores, de un par homosexual que resolvió adoptar un niño; como sea, corresponde a los adultos que se encargaron de un niño, el riesgo y la responsabilidad de educarla y prepararla para la vida, en la medida en que esto es posible. Pero la deuda con la familia perdida nos deprime, nos hace sentir que siempre somos insuficientes como padres, madres y educadores, ya que de salida estamos fuera del modelo de la familia tal como ‘debería ser’. La misma cultura moderna que nos manda hacer todo diferente de lo que nuestros padres y madres hicieron – y así nos mantienen al desabrigo de toda transmisión de la experiencia – nos dice que el ideal, perdido como todo ideal, era que fuéramos exactamente como nuestros padres y madres o, más difícil aún, como nuestros abuelos ”

Maria Rita Kehl, Lugares do feminino e do masculino na família, em A criança na contemporaneidade e a psicanálise. Tradução: Caroline V Nogueira.

MATERNIDADE EM ROMA ANTIGA

“(…) o pai permanecia senhor da sua descendência mesmo depois da sua própria morte. Ele podia precisar no seu testamento que deveria ser exposto um filho que ia nascer. O testamento podia precisar que se nascesse um filho seria deserdado, e deixar a responsabilidade do abandono à mãe. A viúva receberia, contudo, alimentos para a criança, para o caso de nascer uma filha, se o pater tivesse decidido por testamento conservá-la. O aborto não era portanto o principal meio para se interromper definitiva e totalmente o crescimento da família”.

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“(…) el padre permanecía señor de su descendencia incluso después de su propia muerte. Él podía precisar en su testamento que debía ser expuesto un hijo que iba a nacer. El testamento podía precisar que si naciera un hijo sería desheredado, y dejar la responsabilidad del abandono a la madre. La viuda recibía, sin embargo, alimentos para el niño, para el caso de nacer una hija, si el pater hubiera decidido por testamento conservarla. El aborto no era por lo tanto el principal medio para interrumpir definitivamente y totalmente el crecimiento de la familia “.

Aline Rousselle, A política dos corpos: entre a procriação e continência em Roma. História das mulheres no Ocidente. Tradução: Caroline V Nogueira.